PASSADO SANGRENTO

“Os sonhos, que têm muito para nos ensinar acerca da natureza da alma, retratam por vezes as muitas formas que temos de estar ligados ao passado. (…) Na vida exterior, podemos deixar uma pessoa ou um lugar mas, na memória e nos sonhos, a alma agarra-se a essas ligações passadas ”
Thomas Moore – Em busca da Alma Gémea.
Prólogo
A visão tinha-se tornado subitamente turva, e os seus nervos olfactivos, insensíveis. A pulsação era cada vez mais fraca, e o coração já batia irregularmente, prestes a dar a sua última contracção. Acácio Trigueiro ainda respirava, mas com grande dificuldade, pois aquela garra monstruosa não deixava de lhe prensar a vulnerável veia jugular.
Ele conhecia bem o seu opositor, e portanto, sabia que não tinha grandes hipóteses para altercar. Já o tinha defrontado há quase dois séculos atrás. Derrotara-o, é certo, mas agora “aquilo” estava mais forte, mais eficaz e regressara com uma voraz sede de vingança.
- Onde está ele? – Berrou o ser hediondo.
Acácio, em sufoco, tentou responder, mas não conseguia sequer respirar. Por breves momentos, sentiu um alívio na sua garganta, mas ainda assim, mantinha-se asfixiado.
- Diz-me!… Onde está? – Insistiu o seu inimigo.
-Não sei, imbecil! - Respondeu ele, com dificuldade.
- Então morre, “Albuquerque”! – Roncou o ser, arrojando a cabeça do velho Acácio contra uma lápide, deixando-o imobilizado no chão, a esvair-se em sangue.
A criatura afastou-se vagarosamente do local. Galgou para o seu imponente cavalo e partiu a galope, distanciando-se dali a grande velocidade, onde largou um extenso rasto de poeira que se misturou com o nevoeiro denso e húmido.
Era um ser sinistro, tão sinistro como fora antes.
Tombado no chão, Acácio sentiu-se a desfalecer. Ainda levou algum tempo até perceber o que lhe tinha acontecido. Viu a sua vida trespassar-lhe através da memória. Recordou-se dos seus filhos, ainda crianças; lembrou-se do seu casamento. Da sua defunta e amada Filomena. Vislumbrou ainda o submarino Albacora (1), onde navegou e combateu durante a guerra Colonial.
«Como vou fazer para encontrá-lo, antes da “dele”?», pensou.
Tinha de ser mais inteligente do que nunca. Deixaria que a sua alma o guiasse e conduzisse até ao pequeno “inocente” que vivia o seu dia-a-dia, sem imaginar o “mal” que agora o procurava.
Por fim, Acácio reuniu forças e tentou levantar-se. Segurou-se ao Jazigo da sua perecida Filomena e conseguiu pôr-se de pé, como se ela tivesse ali para o ajudar. Olhou em redor e examinou o ambiente sinistro que o cemitério emanava. Sangrava abundantemente da têmpora esquerda.
A noite parecia mais escura do que nunca, talvez por culpa da lua exibir uma feição tenebrosamente feia.
Cambaleante, com a sua longa gabardina despregada ao vento, Acácio parecia um «zombie» a deambular por entre os jazigos. De facto, ele era isso mesmo: um ser moribundo, perdido entre a estreita linha que separa a vida da morte.
- Tenho de encontrá-lo antes dele! – Vociferou, procurando pelo portão que o encaminhava para longe daquele local triste.
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(1) NRP ALBACORA (S-163) Submarino convencional a diesel que nos anos sessenta operou na guerra colonial. Foi desactivado em Julho de 2000
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I -Nunca adormeças profundamente
A manhã despertara pálida e chuvosa.
O ambiente na escola secundária das “Cavaquinhas” estava bastante agitado. Os alunos estavam em greve, pois reivindicavam por melhores condições na escola, nomeadamente, no interior das salas de aulas, onde “chovia” muito, durante todo o Inverno e Outono.
Inesperadamente, os ânimos começaram a exaltar-se, e a policia teve de começar a repor a ordem em alguns alunos, que já tinham passado das marcas. Este incidente levou Ricardo Gonçalves a abandonar o local, regressando para casa a fim de evitar confusões. As aulas tinham começado há pouco mais de um mês, mas ele já se mostrava enfadado da escola, dos professores e até da sua própria turma.
Ele vivia perto da escola, juntamente com os seus tutores, que eram seus tios, José e Magda, pois os seus pais tinham perdido a vida num violento acidente de viação, quando ele tinha apenas nove meses de vida. Desse acidente, apenas uma pessoa sobrevivera: uma criança com apenas 9 meses de idade – Ele próprio, Ricardo Gonçalves.
Os seus tios nunca lhe esconderam que fora dessa forma trágica que os seus pais tinham falecido.
Aparentava ser um rapaz normal e alegre, mas no íntimo, não era. Por vezes, ficava inesperadamente tenso e sombrio, especialmente quando era atormentado por pesadelos horríveis. Não eram pesadelos vulgares, pois acordava sempre muito confuso, sem saber o que tinha acabado de sonhar, e durante alguns minutos não conseguia distinguir o sonho da realidade. Durante o dia esforçava-se por não pensar nos pesadelos que o atormentavam durante a noite.
Ricardo seguiu a pé até casa, pois esta distava apenas dois quarteirões da escola. Absorto nos seus pensamentos, nem olhou para os lados, antes de atravessar a via. Assim que deu o primeiro passo, foi surpreendido pelo ronco de um carro acelerado que irrompeu pela estrada depois de ultrapassar uma pequena lomba.
Ricardo ficou imobilizado no meio da via, «Vou ser atropelado», pensou. Mas para sua surpresa, a viatura travou, detendo-se a poucos centímetros dele.
O jovem estudante ficou, por momentos sem reacção, mas ainda assim conseguiu fixar a viatura que se mantinha parada, mesmo à sua frente. Era um carro antigo, um Mercedes, de cor escura. Afastou se e pesquisou o rosto da pessoa que estava ao volante. Era um velho barbudo com um boné preto enfiado sobre a sua farta cabeleira branca. Puxou de uma fumaça do seu cachimbo e fixou-o também com um ar ameaçador. Por fim, arrancou com o carro numa velocidade moderada e abandonou a rua discretamente.
Ricardo olhou de soslaio para o condutor e a sua mente imaginativa levou-o a ficcionar um pouco, como era seu costume.
“Deve pertencer ao SIS (2), e deve andar a espiar os manifestantes para depois os identificar e mais tarde, prender”.
Sentiu-se confuso e acabou por se sentar no banco de jardim que havia perto da sua casa. Respirou profundamente e recordou-se novamente do rosto do homem, que agora se afigurara estranhamente inofensivo. Decidiu ignorar o incidente e continuar o seu caminho para casa.
A tia Magda mantinha-se entretida no quintal a borrifar as sebes ornamentadas com cameleira. Ricardo chegou a casa e cumprimentou-a fugazmente:
- Olá Tia. Estou um pouco cansado. Vou dormir um pouco.
Entrou no quarto, arremessou a mochila para o canto e caiu estatelado na cama. Fixou o tecto e começou a matutar no que lhe acontecera, mas sentiu-se demasiado extenuado, acabando por adormecer profundamente.
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(2) Serviço de informação e segurança
A tranquilidade nocturna foi interrompida pelo latir vigoroso de Dingo, que denunciava algo de errado a passar-se lá fora. Ricardo despertou assustado e levantou-se da cama um pouco assustado. Escutou o ladrar persistente do cão, que o deixou hesitante entre descer ao piso de baixo e resguardar-se no interior do guarda fato.
Um ente misterioso tinha invadido a casa.
Susteve a respiração durante alguns segundos, para tentar perceber o que estava a acontecer. Pareceu-lhe ouvir um arrojar de pés, medonho e pesado. O “visitante maldito” aproximava-se vagarosamente do seu quarto. Vinha fazer-lhe mal. Era o que ele pressentia.
Decidiu fugir. Era a única solução que lhe restava. Abriu a janela e galgou o parapeito. Tomou balanço e saltou para a cobertura, onde o seu corpo oscilou e vacilou durante alguns segundos, até encontrar, por fim o equilíbrio necessário para não cair dali.
Estava tomado pelo terror. Não podia hesitar mais, senão seria apanhado. Teria, forçosamente de saltar directamente para o chão. Era uma queda de três metros, mas se aquela “coisa” o agarrasse, por certo seria bem pior.
Saltou e caiu no chão duro que nem aço. Sentiu o tornozelo a estalar como um tronco de madeira. Ainda assim, conseguiu levantar-se e afastou-se, embrenhando-se nas videiras que se alongavam pelas traseiras da sua casa.
Ricardo correu, correu até cair. Estava completamente esgotado, ofegante e exausto. Já não tinha fôlego, nem para mais um passo. Escutou Dingo a ladrar furiosamente. Inesperadamente aquele latido foi abruptamente interrompido por um estranho e doloroso ganido. Aquela «coisa» tinha acabado de esquartejar o seu melhor amigo.
Fez-se um silêncio de morte. Apenas o rumorejar do vento frio entre as vinhas espessas, mantinha desperto o silêncio da noite.
Já sem fôlego nem forças, Ricardo não sabia o que fazer. Só pensava em não entrar em pânico. As dores do seu tornozelo tinham-se tornado insuportáveis.
Começou a arrastar-se, fazendo impulsão com os braços, puxando o resto do corpo para a frente. Atrás dele, a vegetação agitou-se bruscamente. Algo se deslocava na sua direcção.
Gotas húmidas caíram-lhe na face. Julgou tratar-se de pingos de chuva. Virou a cabeça para o lado e gelou-se-lhe o sangue com o que viu. Um monstro horrível detinha-se mesmo à sua frente.
Nem o mais completo dicionário terá adjectivos para caracterizar um ser tão desconforme e horroroso como aquele que agora fixava Ricardo com uns olhos mais ensanguentados que os do Diabo. Prendeu o miúdo pelo pescoço com a violência de um touro enraivecido, e ergueu-o até ao nível da sua figura deformada, levando Ricardo a gritar apavorado de terror.
- Ricardo, Ricardo!… Acorda, estás a ter um pesadelo! – Era a sua tia Magda, que o sacudia levemente.
-Tia!… Que pesadelo horrível! – Balbuciou ele, enquanto despertava confuso e amedrontado. Passou a mão pelo cabelo e depois pela testa. Estava alagado em suor; tentou recordar-se do pesadelo e do rosto daquela coisa, mas essa imagem aterradora recolheu-se nas profundezas do seu cérebro.
Observou-o com atenção e percebeu que o homem caminhava agora na sua direcção. Hesitou entre fugir devagar ou a correr. Mas a sua determinação levou-o a ficar ali sentado a observar o velho a caminhar na sua direcção.
No dia 2 de Março de 1815 surgiu uma notícia que abalou toda a região. Um acontecimento macabro e sangrento atingira a família do Marquês. A sua sobrinha, a pequena Cinthya, de sete anos fora brutalmente assassinada. O Corpo da fora encontrado numa zona recôndita do palácio onde a família habitava. A menina fora violada e depois assassinada. Alguns dos seus órgãos tinham desaparecido do seu cadáver, o que levou a crer que tinham sido comidos. Primeiro especulou-se que tinha sido algum animal selvagem que deambulasse pela zona, mas após a autópsia, essa versão foi descartada, e avançado outra mais credível: Cinthya fora atacada por um ser humano, e os seus órgãos tinham sido cortados com uma faca!
A madrugada surgira com subtileza e a neblina adensara-se na ria de Coina.
Hoje visitei Fréderic Antoine Mesmer, um curandeiro alemão que se encontra exilado em Portugal. Este disse-me que eu não sofria de doença nenhuma. Estava sim, possuído por «Abaddon», demónio da destruição; para exorciza-lo do meu corpo, eu teria de desflorar 9 virgens e comer os seus órgãos.