Sunday, June 7, 2009

PASSADO SANGRENTO






“Os sonhos, que têm muito para nos ensinar acerca da natureza da alma, retratam por vezes as muitas formas que temos de estar ligados ao passado. (…) Na vida exterior, podemos deixar uma pessoa ou um lugar mas, na memória e nos sonhos, a alma agarra-se a essas ligações passadas ”

 

Thomas Moore – Em busca da Alma Gémea.

 

 

 

 

Prólogo

 

 

A visão tinha-se tornado subitamente turva, e os seus nervos olfactivos, insensíveis. A pulsação era cada vez mais fraca, e o coração já batia irregularmente, prestes a dar a sua última contracção. Acácio Trigueiro ainda respirava, mas com grande dificuldade, pois aquela garra monstruosa não deixava de lhe prensar a vulnerável veia jugular.

 

Ele conhecia bem o seu opositor, e portanto, sabia que não tinha grandes hipóteses para altercar. Já o tinha defrontado há quase dois séculos atrás. Derrotara-o, é certo, mas agora “aquilo” estava mais forte, mais eficaz e regressara com uma voraz sede de vingança.

 

- Onde está ele? – Berrou o ser hediondo.

Acácio, em sufoco, tentou responder, mas não conseguia sequer respirar. Por breves momentos, sentiu um alívio na sua garganta, mas ainda assim, mantinha-se asfixiado.

- Diz-me!… Onde está? – Insistiu o seu inimigo.

-Não sei, imbecil! - Respondeu ele, com dificuldade.

- Então morre, “Albuquerque”! – Roncou o ser, arrojando a cabeça do velho Acácio contra uma lápide, deixando-o imobilizado no chão, a esvair-se em sangue.

A criatura afastou-se vagarosamente do local. Galgou para o seu imponente cavalo e partiu a galope, distanciando-se dali a grande velocidade, onde largou um extenso rasto de poeira que se misturou com o nevoeiro denso e húmido.

Era um ser sinistro, tão sinistro como fora antes.

 

 

Tombado no chão, Acácio sentiu-se a desfalecer. Ainda levou algum tempo até perceber o que lhe tinha acontecido. Viu a sua vida trespassar-lhe através da memória. Recordou-se dos seus filhos, ainda crianças; lembrou-se do seu casamento. Da sua defunta e amada Filomena. Vislumbrou ainda o submarino Albacora (1), onde navegou e combateu durante a guerra Colonial.

«Como vou fazer para encontrá-lo, antes da “dele”?», pensou.

 

Tinha de ser mais inteligente do que nunca. Deixaria que a sua alma o guiasse e conduzisse até ao pequeno “inocente” que vivia o seu dia-a-dia, sem imaginar o “mal” que agora o procurava.

 

Por fim, Acácio reuniu forças e tentou levantar-se. Segurou-se ao Jazigo da sua perecida Filomena e conseguiu pôr-se de pé, como se ela tivesse ali para o ajudar. Olhou em redor e examinou o ambiente sinistro que o cemitério emanava. Sangrava abundantemente da têmpora esquerda.

A noite parecia mais escura do que nunca, talvez por culpa da lua exibir uma feição tenebrosamente feia.

Cambaleante, com a sua longa gabardina despregada ao vento, Acácio parecia um «zombie» a deambular por entre os jazigos. De facto, ele era isso mesmo: um ser moribundo, perdido entre a estreita linha que separa a vida da morte.

 

 

-    Tenho de encontrá-lo antes dele! – Vociferou, procurando pelo portão que o encaminhava para longe daquele local triste.

 

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(1) NRP ALBACORA (S-163) Submarino convencional a diesel que nos anos sessenta operou na guerra colonial. Foi desactivado em Julho de 2000

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I -Nunca adormeças profundamente

 

 

 

 

A manhã despertara pálida e chuvosa.

O ambiente na escola secundária das “Cavaquinhas” estava bastante agitado. Os alunos estavam em greve, pois reivindicavam por melhores condições na escola, nomeadamente, no interior das salas de aulas, onde “chovia” muito, durante todo o Inverno e Outono.

Inesperadamente, os ânimos começaram a exaltar-se, e a policia teve de começar a repor a ordem em alguns alunos, que já tinham passado das marcas. Este incidente levou Ricardo Gonçalves a abandonar o local, regressando para casa a fim de evitar confusões. As aulas tinham começado há pouco mais de um mês, mas ele já se mostrava enfadado da escola, dos professores e até da sua própria turma.

 

Ele vivia perto da escola, juntamente com os seus tutores, que eram seus tios, José e Magda, pois os seus pais tinham perdido a vida num violento acidente de viação, quando ele tinha apenas nove meses de vida. Desse acidente, apenas uma pessoa sobrevivera: uma criança com apenas 9 meses de idade – Ele próprio, Ricardo Gonçalves.

Os seus tios nunca lhe esconderam que fora dessa forma trágica que os seus pais tinham falecido.

 

Aparentava ser um rapaz normal e alegre, mas no íntimo, não era. Por vezes, ficava inesperadamente tenso e sombrio, especialmente quando era atormentado por pesadelos horríveis. Não eram pesadelos vulgares, pois acordava sempre muito confuso, sem saber o que tinha acabado de sonhar, e durante alguns minutos não conseguia distinguir o sonho da realidade. Durante o dia esforçava-se por não pensar nos pesadelos que o atormentavam durante a noite.

 

Ricardo seguiu a pé até casa, pois esta distava apenas dois quarteirões da escola. Absorto nos seus pensamentos, nem olhou para os lados, antes de atravessar a via. Assim que deu o primeiro passo, foi surpreendido pelo ronco de um carro acelerado que irrompeu pela estrada depois de ultrapassar uma pequena lomba.

 

 

 

Ricardo ficou imobilizado no meio da via, «Vou ser atropelado», pensou. Mas para sua surpresa, a viatura travou, detendo-se a poucos centímetros dele.

O jovem estudante ficou, por momentos sem reacção, mas ainda assim conseguiu fixar a viatura que se mantinha parada, mesmo à sua frente. Era um carro antigo, um Mercedes, de cor escura. Afastou se e pesquisou o rosto da pessoa que estava ao volante. Era um velho barbudo com um boné preto enfiado sobre a sua farta cabeleira branca. Puxou de uma fumaça do seu cachimbo e fixou-o também com um ar ameaçador. Por fim, arrancou com o carro numa velocidade moderada e abandonou a rua discretamente.

Ricardo olhou de soslaio para o condutor e a sua mente imaginativa levou-o a ficcionar um pouco, como era seu costume.

 “Deve pertencer ao SIS (2), e deve andar a espiar os manifestantes para depois os identificar e mais tarde, prender”.

 

Sentiu-se confuso e acabou por se sentar no banco de jardim que havia perto da sua casa. Respirou profundamente e recordou-se novamente do rosto do homem, que agora se afigurara estranhamente inofensivo. Decidiu ignorar o incidente e continuar o seu caminho para casa.

 

A tia Magda mantinha-se entretida no quintal a borrifar as sebes ornamentadas com cameleira. Ricardo chegou a casa e cumprimentou-a fugazmente:

- Olá Tia. Estou um pouco cansado. Vou dormir um pouco.

 

Entrou no quarto, arremessou a mochila para o canto e caiu estatelado na cama. Fixou o tecto e começou a matutar no que lhe acontecera, mas sentiu-se demasiado extenuado, acabando por adormecer profundamente.

 

 

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(2) Serviço de informação e segurança

 

 

A tranquilidade nocturna foi interrompida pelo latir vigoroso de Dingo, que denunciava algo de errado a passar-se lá fora. Ricardo despertou assustado e levantou-se da cama um pouco assustado. Escutou o ladrar persistente do cão, que o deixou hesitante entre descer ao piso de baixo e resguardar-se no interior do guarda fato.

 

Um ente misterioso tinha invadido a casa.

Susteve a respiração durante alguns segundos, para tentar perceber o que estava a acontecer. Pareceu-lhe ouvir um arrojar de pés, medonho e pesado. O “visitante maldito” aproximava-se vagarosamente do seu quarto. Vinha fazer-lhe mal. Era o que ele pressentia.

Decidiu fugir. Era a única solução que lhe restava. Abriu a janela e galgou o parapeito. Tomou balanço e saltou para a cobertura, onde o seu corpo oscilou e vacilou durante alguns segundos, até encontrar, por fim o equilíbrio necessário para não cair dali.

 

Estava tomado pelo terror. Não podia hesitar mais, senão seria apanhado. Teria, forçosamente de saltar directamente para o chão. Era uma queda de três metros, mas se aquela “coisa” o agarrasse, por certo seria bem pior.

Saltou e caiu no chão duro que nem aço. Sentiu o tornozelo a estalar como um tronco de madeira. Ainda assim, conseguiu levantar-se e afastou-se, embrenhando-se nas videiras que se alongavam pelas traseiras da sua casa.

Ricardo correu, correu até cair. Estava completamente esgotado, ofegante e exausto. Já não tinha fôlego, nem para mais um passo. Escutou Dingo a ladrar furiosamente. Inesperadamente aquele latido foi abruptamente interrompido por um estranho e doloroso ganido. Aquela «coisa» tinha acabado de esquartejar o seu melhor amigo.  

 

Fez-se um silêncio de morte. Apenas o rumorejar do vento frio entre as vinhas espessas, mantinha desperto o silêncio da noite.

 Já sem fôlego nem forças, Ricardo não sabia o que fazer. Só pensava em não entrar em pânico. As dores do seu tornozelo tinham-se tornado insuportáveis.

Começou a arrastar-se, fazendo impulsão com os braços, puxando o resto do corpo para a frente. Atrás dele, a vegetação agitou-se bruscamente. Algo se deslocava na sua direcção.

 

Gotas húmidas caíram-lhe na face. Julgou tratar-se de pingos de chuva. Virou a cabeça para o lado e gelou-se-lhe o sangue com o que viu. Um monstro horrível detinha-se mesmo à sua frente.

Nem o mais completo dicionário terá adjectivos para caracterizar um ser tão desconforme e horroroso como aquele que agora fixava Ricardo com uns olhos mais ensanguentados que os do Diabo. Prendeu o miúdo pelo pescoço com a violência de um touro enraivecido, e ergueu-o até ao nível da sua figura deformada, levando Ricardo a gritar apavorado de terror.

 

- Ricardo, Ricardo!… Acorda, estás a ter um pesadelo! – Era a sua tia Magda, que o sacudia levemente.

-Tia!… Que pesadelo horrível! – Balbuciou ele, enquanto despertava confuso e amedrontado. Passou a mão pelo cabelo e depois pela testa. Estava alagado em suor; tentou recordar-se do pesadelo e do rosto daquela coisa, mas essa imagem aterradora recolheu-se nas profundezas do seu cérebro.

 

 

II- O Segredo das almas

 

 

 

A sala de espera estava cheia nem um ovo. Ricardo aguardava pela sua consulta com um ar de desespero estampado no rosto. A sua tia Magda, por sua vez, conservava um ar indiferente e distante, demonstrando interesse apenas na leitura das coscuvilhices do jet-set, desfolhando avidamente a revista da «caras».  

Entretanto, o altifalante deitou um sonido estranho, escutando-se logo de seguida o nome Ricardo Gonçalves para o gabinete número dois!

-Vamos, Ricardo. Vamos, que já estão a chamar! – Disse a tia Magda.

Ricardo entrou no gabinete e sentou-se. À sua frente estava uma jovem psiquiatra, que o esperava para começar a consulta. Ela olhou para ele com os óculos suspensos na ponta do nariz.

 

-Bom dia Ricardo. O meu nome é Elisabete Morais, sou a tua psicóloga. Vamos apenas conversar um bocadinho.

-Tá bem… – Respondeu ele, pouco à vontade.

-Muito bem. Já sei o teu nome. Sei que vives no Seixal, não é?

-… Sim ele vive no Seixal… – Intercedeu a tia Magda, que obteve como resposta, um breve olhar por parte da psicóloga.

- O que fazes nos teus tempos livres? – Continuou a Doutora.

- Costumo ir até ao parque da Siderurgia, que é um sítio onde o pessoal curte com as bicicletas…

-Diz-me Ricardo… – Prosseguiu ela – Tens muitos amigos?

-Ele não tem amigos nenhuns. Ele não se dá com ninguém, não entendo… – Asseverou a tia Magda, que voltou a responder por ele.

Nesse momento, a psicóloga perdeu a paciência.

-Dona Magda, se continuar a responder pelo seu sobrinho, eu não vou conseguir acabar a consulta, porque a senhora persiste em interromper…

- Pois, mas…mas olhe, eu vou lá para fora… – Disse Magda, rispidamente.

 

A psicóloga não se opôs à saída da tia Magda.

Ricardo era uma criança com uma inteligência invulgar. Vivia isolado, sob um ambiente de incompreensão, e a psiquiatra já tinha detectado essa situação

Aquele jovem não tinha ninguém com quem partilhar o tenebroso universo que o envolvia e atormentava. Fechava-se demasiado em si próprio e sentia-se vítima daqueles pesadelos medonhos que o incomodavam durante a noite. Somente, a seresma da tia Magda é que não compreendia o seu sofrimento; ou talvez não quisesse mesmo saber, preferindo acreditar que ele padecia de algum “atraso mental”.

 

-Existe alguma coisa na tua vida que te aborreça, Ricardo? – Insistiu a psiquiatra.

-Existe! - Respondeu ele de imediato. - Não gosto do Natal. Não sei porquê, mas nunca gostei do Natal!

Elisabete arqueou as sobrancelhas, mostrando estranheza.

- Há mais alguma coisa que te aborreça? Podes confiar em mim, Ricardo!

-Tenho dificuldade em adormecer à noite. - Confessou Ricardo com os seus olhos verdes humedecidos.

- Sofres de insónias, Ricardo. Então o que é que não te deixa dormir?

-Tenho medo do escuro e medo de adormecer, porque depois vêm os pesadelos! -Queixou-se ele, baixinho.

 

- Queres-me contar que pesadelos são esses?

- Sonho com uma casa velha. Eu vivo lá com um homem mais velho, que é o meu avô. Ele é agricultor. É tudo estranho. Tudo se passa no tempo antigo, há séculos atrás…

-E o que acontece, Ricardo? – Perscrutou ela.

- Eu estou sozinho. Oiço as portas a bater, escuto o meu avô a gritar e de repente fica tudo silencioso. Decido fugir pela janela do meu quarto, dando um enorme salto para o chão, mas torço um pé. Pressinto que «algo» me persegue, e fujo para o meio das vinhas… – Ricardo interrompeu o discurso com um suspiro.

-Continua Ricardo… – Requereu a Dr.ª Elisabete serenamente.

-Surge um monstro medonho, que tem um cheiro a podre, que parece saído de um pântano. Ele persegue-me por entre as vinhas… mas acaba por me apanhar! Nessa altura, eu acordo baralhado, sem saber distinguir se estou acordado ou não.

-Os teus pesadelos são sempre iguais, Ricardo?

- Sim, são muito parecidos.

- Recordas-te de mais alguma coisa, nesses teus pesadelos?

- Recordo-me do nome do meu avô: «António Albuquerque»!!!

 

III – A verdade escondida no tempo

 

                                                                                             

 

Ricardo até nem era adepto de desportos radicais, mas naquela sexta-feira decidiu ir até ao “parque da siderurgia”, decidido a assistir às acrobacias que os praticantes destes desportos executam durante as suas “performances”. Além disso, estaria lá a Cátia Faleiro com a sua «Bike voadora». Para ele, isso era sinónimo de espectáculo. Cátia era uma garota lá da escola que frequentava o 9º ano, mas por quem ele tinha uma grande fixação. Não só por ser uma adolescente bonita, mas pelo festival que ela proporcionava quando se empoleirava na sua «Bike». Era uma arrebatadora de prémios e de corações também.

 

Sentado em cima do tronco de um carvalho tombado, Ricardo contemplava a miúda a esvoaçar pelos céus, montada na sua Bike preta. Inesperadamente, apercebeu-se que alguém o observava. Era aquele velho estranho que quase o atropelara naquela manhã, perto da escola. Reconheceu-o pelo seu boné de marujo e também pelo cachimbo.

Observou-o com atenção e percebeu que o homem caminhava agora na sua direcção. Hesitou entre fugir devagar ou a correr. Mas a sua determinação levou-o a ficar ali sentado a observar o velho a caminhar na sua direcção. 

 

- Olá. Não tenhas medo de mim, Ricardo! – Proferiu o estranho, num semblante simpático.

- Como é que sabe o meu nome? – Perguntou ele, com o rosto pleno de admiração.

 - Eu sei tudo sobre ti, rapaz – exclamou o velho, fixando-o.

- Desculpe, mas isso não é possível.

- É possível, sim. Sabes porquê?…

- Não…

- Porque tu e eu temos os mesmos sonhos e os mesmos… pesadelos – Exclamou o velho, expulsando o fumo da sua boca.

- Eu não tenho pesadelos nenhuns. – Contrariou Ricardo apressadamente.

- Tens! – Afirmou com grande convicção - Eu sei que tens. Sonhas com um grande palácio no campo. Tens um cãozinho, o Dingo. E depois…depois aparece o «monstro»!

- Como é que sabe tudo isso? – Perguntou Ricardo visivelmente indignado.

 -Porque nós dois já vivemos outras vidas. Há muito, muito tempo atrás, nós dois enfrentámos um monstro.

- Que monstro? – Indagou Ricardo, perplexo.

- O Marquês Darkmoon!

 

Aquele nome soara-lhe estranhamente familiar. Como era possível?

 

- Alguém ou algo o ressuscitou – Continuou o velho Acácio – E agora, ele anda desesperadamente à tua procura, Ricardo.

- À minha procura? Mas que mal lhe fiz eu? – Insurgiu-se ele nervosamente. 

- Tens de confiar em mim e vir comigo. Vamos fazer uma pequena viagem pelo tempo.

 

Ricardo assentiu e abandonou o parque da siderurgia na companhia do velho Acácio trigueiro. Enfiou-se no Mercedes, onde ambos arrancaram até ao destino misterioso, indicado pelo velho Acácio, que aparentemente, não era apenas um cota chanfrado que não sabia conduzir. Ele sabia muito, senão tudo, acerca dos insuportáveis pesadelos de Ricardo, que afinal não derivavam de nenhuma paranóia, nem de delírios mentais, tal como os seus tios ingenuamente pensavam. Não. Era tudo uma questão de regressão psíquica. Restava apenas saber o que tinha acontecido nesse «passado» misterioso e sangrento. Para tal, confiou no velho Acácio, que agora o conduzia através de uma viagem pelo canal que liga as almas do passado à vida presente.

 

 

 

IV – O palácio do Infante

 

 

O palácio do Infante era um eminente casarão cercado por uma quinta vastíssima, adornada por uma admirável vegetação. Era uma casa monumental que se situava na freguesia da Amora, a poucos quilómetros do Seixal.    

 

Rezavam as crónicas, que o palácio tinha sido mandado construir pelo Infante D. Augusto em 1877, depois da morte da Infanta D. Isabel de Bragança, filha do rei D. João VI, rei de Portugal.

Mas a verdade é que este palácio fora edificado muito antes dessa data, por ordem de um marquês riquíssimo, oriundo de Inglaterra, de seu nome, Marquês Darkmoon.

Este marquês habitou o palácio apenas durante alguns anos, até ao dia em que desapareceu misteriosamente, deixando a casa em completo e inexplicável abandono. Alguns anos mais tarde, o Infante D. Augusto adquiriu a Quinta da princesa, juntamente com as quintas do Cheira-Ventos e do Caldas, pela quantia de 26 contos de reis. Nessa mesma época, ele adquiriu também o palácio abandonado pelo obscuro Marquês inglês, Darkmoon. Anteriormente a propriedade chamava-se simplesmente, “Quinta do palácio”. 

O Infante ignorava, que uma terrível maldição tinha sido largada sobre o palácio, e que ali tinham ocorrido acontecimentos pavorosos. Coisas sinistras e obscuras que se resguardavam por entre a penumbra e o silêncio das paredes compactas do palácio. Uma maldição tão perturbadora, que não iria permitir a mais ninguém ser feliz naquela casa, durante muito tempo.

 

Infelizmente, o Infante viria mesmo a falecer prematuramente, no ano de 1889, com apenas 42 anos. Mais tarde, a casa fora vendida a um médico da «casa real», o Doutor Bossa, que casou mais tarde, com uma condessa que conhecera nos meios aristocráticos, e que escolhera o palácio para viver o “grande amor da sua vida”. No entanto, eles tiveram que abandonar a casa devido a graves perturbações por parte da Condessa, que até àquela data tinha sido uma mulher extremamente sóbria e saudável. Essas perturbações nunca foram conhecidas mas, segundo testemunhos dos empregados, a condessa descontrolava-se com as frequentes alucinações que tinha dentro de casa, que a levavam a ter delírios inexplicáveis.   

Mais tarde, por volta do início da Republica, a quinta foi adquirida pela família Sande Lemos, na posse da qual se mantém há três gerações.

Mas devo realçar que o palácio nunca mais foi habitado por mais ninguém até aos dias de hoje…

 

 

***

 

 

Do cimo do planalto, o palácio do Infante impunha a sua monumentalidade centenária. Apenas o vento se declarava pelo meio das árvores arrogantes que flanqueavam aquele edifício imponente.

A casa patenteava mais de meia centena de portas e janelas viradas para o exterior, distribuídas pelos cinco pisos, incluindo águas furtadas e torreão.

 

Acácio estacionou o Mercedes em frente ao portão principal do palácio. Notou que Ricardo ficara perplexo ao vislumbrar a construção que se erguia perante ele. Estava decrépito, pois já não era habitado há mais de um século.

 

- Credo! Esta é a casa com que eu por vezes sonho… – Balbuciou Ricardo.

- Esta casa vai-nos revelar muita coisa. – Asseverou Acácio.

- È enorme!

- Ainda não viste nada!

 

Acácio socorreu-se da sua gazua “manufacturada” para abrir o portão principal, que se erguia em três metros de altura. Introduziu a gazua na fenda da fechadura oxidada e girou-a com alguma paciência e perícia também, até a conseguir destrancar. Depois empurrou-o cuidadosamente, mas não conseguiu evitar que este rangesse estridentemente ao arrastar pelo chão.

 

Acácio e Ricardo precipitaram-se para dentro da quinta, onde percorreram uma pequena distancia até chegarem ao jardim que envolvia o palácio. O silêncio e a placitude impunham-se lugubremente. Apenas a oscilação das palmeiras e das casuarinas se fazia notar naquela quietude sombria.

Contornaram a casa com a cautela de dois assaltantes e acabaram por alcançar uma pequena porta de madeira que dava acesso ao interior da casa. Acácio descerrou-a também, mas desta vez com menos dificuldade.

 

Um intenso cheiro a mofo foi a primeira coisa que os incomodou. Acácio ligou a lanterna, que produziu uma luz muito ténue, dando um tom fantasmagórico à sala pequena, espoliada de qualquer recheio.

Seguidamente ultrapassaram essa sala e deram com uma escada de madeira que comunicava com o piso superior. Acácio subiu, pois não confiava na segurança estrutural da madeira apodrecida. Quando chegou lá a cima, chamou Ricardo com um breve assobio para que ele subisse também.

 

Quando chegou lá acima deu com Acácio paralisado a contemplar a elegância decrépita dos aposentos mais nobres.

Tratava-se de dois grandes salões, uma sala de jantar e ainda nove quartos. Do cimo do tecto pendia uma enorme e aterradora teia de aranha, que parecia fixar-se ali para testemunhar o abandono humano de séculos e séculos.

O pó que se soltava do chão gravitava no ar com as passadas que eles davam. Por vezes paravam e escutava-se um escarapelar arrepiante, proveniente da cave, emanado pelas ratazanas que habitavam a antiga adega.

 

«É mesmo uma casa assombrada» concordaram telepáticamente.

 

-Estou à espera que me diga o que procuramos aqui? – Investigou Ricardo, pleno de evidente curiosidade.

-Neste momento, estamos a fazer um reconhecimento ao «terreno»! – Retorquiu Acácio.

- Um quê?… – Persistiu Ricardo, com ar de alguma apreensão.

- Isto é um termo militar, meu amigo. Vamos fazer uma revista geral à casa. Depois, vamos escolher um local onde nos vamos esconder e esperar…

- Esperar?…Por quem?

- Por Ele!

Em redor do palácio abateu-se um silêncio sepulcral que só foi estorvado pelo estrondear severo de um trovão.

 

Lá fora, a chuva começou a vergastar o telhado antigo. O vento bramiu zangado, forçando os dragoeiros a balancear como se quisessem evadir-se do solo. A casa rangeu como se fosse um barco à deriva no mar alto.

 

Por fim, a noite caiu e a casa ficou mergulhada numa acentuada penumbra.

Temos de iluminar este local! – Advertiu Acácio, movendo-se na direcção da lareira.

 

Ricardo ficou a observá-lo, e no momento em que o velho passou pela frente de um espelho fixo na parede, sentiu um incómodo formigueiro trepar-lhe pela espinha. A imagem reflectida não foi a de Acácio Trigueiro, mas a do velho «Albuquerque» com quem ele sonhava sempre. O palácio não estava apenas assombrado – Aquele local era um verdadeiro pesadelo vivo, onde os ecos do passado eram trazidos à realidade, através de uma sintonia espectral que não deixava indiferente quem fosse que ali entrasse.

- Parece que conhece bem o palácio, senhor Acácio…

-    Nós já vivemos nesta casa! – Declarou o velho Acácio, colocando as mãos sobre o lume para as aquecer.

- Como é que é possível, já termos vivido aqui? – Inquiriu o miúdo, com o seu ar sempre perscrutador.

-Eu explico-te. – Replicou ele calmamente, retirando o cachimbo da sua bolsa. – Trabalhámos nesta casa em 1811. Éramos serviçais. Eu era o teu avô e laborava nas vinhas, lá mais atrás. O Marquês Darkmoon era o dono de toda esta região.

 

-    Como sabe tudo isso? – Inquiriu Ricardo com o seu rosto sagaz.

-    Fiz terapia de regressão… há trinta e oito anos atrás! Quando fui destacado para a guerra do Ultramar, eu estava na Marinha e embarquei no submarino Albacora. Durante uma das missões, em Janeiro de 1962, o Albacora sofreu uma grave avaria e teve de atracar de urgência num porto em Cabo Verde, permanecendo num estaleiro durante duas semanas.

Enquanto esteve em reparação, decidi fazer algumas expedições pela selva, onde acidentalmente conheci uma jovem feiticeira de nome Hadija Aljani, que pertencia a uma tribo de nome Sarparra (cortadores de cabeças).  

Mais tarde ela revelou-me algo que me fez arrepiar. Falou-me numa perseguição sem fim, levada a cabo por uma temível evocação das trevas. Depois convenceu-me que a única forma de combater esse terrível ente demoníaco, seria através do hipnotismo e regressão psíquica. Só assim seria possível compreender a vida e livrar-me do mal que me perseguia há séculos. Por fim, autorizei que ela me hipnotizasse.

O que vi diante dos meus olhos foi um horror terrível e inexplicável…

 

 

 

V - O Marquês Darkmoon

 

 

António Albuquerque era um modesto serviçal da «Quinta do palácio». Era ele quem zelava por todos os trabalhos inerentes à manutenção do palácio. Tratava também do gado, vinhas, estufas, adega e da coudelaria.

Ficou viúvo apenas com 55 anos quando Carolina, a sua segunda esposa, faleceu ao dar à luz a pequena Maria, que viria a falecer também um dia depois.

 

 

 

 

 

 

Albuquerque habitava nas águas-furtadas do palácio, num aposento exclusivamente para ele, que era o encarregado dos serviçais. Vivia com o seu neto, o pequeno Manuel, que se revelara um excelente criado, embora passasse a maior parte do tempo a brincar às escondidas com o seu cão, Dingo.

 

O ano de 1810 prometia ser intrincado para os agricultores e também para os produtores, especialmente da região do Alentejo. Por um lado, as intempéries dificultariam o cultivo; por outro, as invasões francesas assolavam os produtores, que se mantinham prudentes em fazer investimentos. 

Quando a crise se agravou, a maior parte dos agricultores foram obrigados a abandonar os seus terrenos, uma vez que não dispunham de apoio financeiro por parte dos seus proprietários.

 

Foi neste cenário de crise que surgiu o misterioso Marquês Darkmoon.

Ainda jovem combatera as tropas de Napoleão, sob as ordens de Beresford, que tinha como missão, organizar e agrupar tacticamente, as tropas inglesas com o exército português. Mas Beresford era um general com poucas qualidades para o comando de tropas, e foi exactamente na batalha de Albuera, em 1811, que Darkmoon se destacara pela sua iniciativa em reposicionar no terreno as tropas aliadas, antes indicadas por Beresford, evitando assim uma chacina completa, salvando inclusive a vida ao general e a mais de mil soldados, o que lhe valeu posteriormente uma condecoração régia.  

 

Quando terminaram as invasões, o poderoso Darkmoon voltou a sua atenção para a aquisição de propriedades, apropriando-se de grande parte dos domínios de Palmela e Setúbal, executando pequenos, médios e grandes proprietários. O seu objectivo era transformar aquela região numa grande propriedade agrícola. Aos proprietários não lhes restava alternativa. Ou resistiam ao poder do Marquês, (o que lhes custava posteriormente, uma pilhagem por parte do sua temível “quadrilha”) ou entregavam as terras a Darkmoon, que lhes garantia trabalho e protecção.

A quinta do palácio era o refúgio do Marquês – O seu lar.              

Era o local onde ele repousava, dedicando-se aos seus entretenimentos de fidalguia – caça e criação de cavalos de raça.

Era um homem reservado, mas morbidamente estranho. Toda a gente lhe tinha o medo de morte. Rezam as lendas, que certo dia, um homem fora apanhado pelos homens da sua quadrilha a saltar o muro do palácio. O homem foi levado ao marquês, que o fez transportar até um grande largo, onde o atou a uma cruz de pau. A populaça juntou-se no local e ali ficara a observar o pobre homem a ser chicoteado severamente. Depois ali ficou abandonado, atado à cruz, a esvair-se em sangue, quase até à morte.

O nome da terra onde ocorreu tão mórbido episódio tem hoje o nome de “Cruz de Pau”.

 

 

 

VI - O Reino do terror

 

 

 

 

No dia 2 de Março de 1815 surgiu uma notícia que abalou toda a região. Um acontecimento macabro e sangrento atingira a família do Marquês. A sua sobrinha, a pequena Cinthya, de sete anos fora brutalmente assassinada. O Corpo da fora encontrado numa zona recôndita do palácio onde a família habitava. A menina fora violada e depois assassinada. Alguns dos seus órgãos tinham desaparecido do seu cadáver, o que levou a crer que tinham sido comidos. Primeiro especulou-se que tinha sido algum animal selvagem que deambulasse pela zona, mas após a autópsia, essa versão foi descartada, e avançado outra mais credível: Cinthya fora atacada por um ser humano, e os seus órgãos tinham sido cortados com uma faca!

 Andava um assassino a monte.

 

Dois meses depois, uma outra criança, desta vez um rapaz de doze anos, fora encontrado a boiar nas margens do rio Judeu, através de dois pescadores, durante a noite. Também este tinha sido vítima de violação, tendo sido depois assassinado. Soube-se mais tarde que ao corpo do rapaz faltava o fígado e o coração.

Inexplicavelmente, os crimes macabros pareciam não ter fim. Em poucos meses, sete crianças tinham sido monstruosamente espancadas, violadas, e torturadas até à morte. Ninguém conseguia elaborar uma explicação lógica para tão pavorosos acontecimentos. As autoridades locais investigavam os crimes, mas o terrível assassino tardava em ser capturado.  

 

 

**

 

 

No dia do seu vigésimo oitavo aniversário, o Marquês organizou um grande banquete na quinta do Palácio.

Havia um majestoso baile a abrir a festa e muita animação por todo o palácio, que servia unicamente para os fidalgos pompearem os seus luxos, as novas modas e tagarelarem sobre as novas ideias iluministas. 

Damas esbeltas, apresentavam-se acompanhadas com os seus pares, trajadas com os seus vestidos compridos, importados de França, cujos corpetes ostentavam generosos decotes, onde as jóias adornavam o peito, e as barras dos seios.

A seguir ao jantar, o Marquês presenteou os convivas com a exibição da peça de teatro, “Auto das regateiras de Lisboa” de António Ribeiro Chiado – uma peça do séc. XVI.

 

Enquanto o festim decorria, Manuel Albuquerque fugiu do trabalho duro da cozinha e escondeu-se no meio dos loendros para pregar um susto à pequena Madalena. Inesperadamente, Dingo soltara-se da corrente que o prendia e pulou numa correria desenfreada, atrás de um coelho bravo que despontara por ali. O cachorro penetrou pelo jardim do palácio e seguiu em diante, através dum longo e estreito carreiro ladeado por acácias. Manuel perseguiu velozmente o animal até que desembocou numa área florestal que ia para além do jardim.

 

 

 

 

Ao fim de percorrer alguns metros, ele apercebeu-se que estava perdido e que Dingo desaparecera também.

Tentou encontrar o caminho de regresso, mas tal não sucedeu, pois o Palácio era rodeado por uma extensa área florestal.

Manuel continuou a andar em círculos, até que “algo” o fez parar. Tinha escutado uns curtos e estranhos sussurros, que provinham de uma cabana mal iluminada que ele descobrira ali, camuflada entre a vegetação. O jovem acercou-se da pequena cabana, dando pequenos e comedidos passos para não fazer barulho. Ao abeirar-se, espreitou através de uma das gretas, e nem quis acreditar no que os seus olhos lhe mostravam: o Marquês Darkmoon!

 

 «O que faz ele aqui?» inquiriu com estranheza.

 

O interior da barraca era desobscurecido pela luminosidade de dezenas de velas negras, que descreviam um pentagrama que parecia estranhamente invertido. O Marquês conservava-se completamente nu e movia-se de uma forma estranha. Os seus olhos estavam estranhamente revirados e sussurrava coisas completamente imperceptíveis para Manuel. Debruçava-se sobre o seu próprio corpo, praguejando estranhos dizeres, ora inclinando o tronco na direcção do solo, ora elevando-o para o alto.

 

 

“Non volo moriture,

Mors ultima ratio.

Cuique suum,

Ex dono,

Sustine et abstina,

Testis unos, Testis nullus”. (3)

 

Ansioso por ver tudo, ele esticou-se para obter uma melhor perspectiva daquele cenário mórbido, apercebendo-se que o Marquês não estava sozinho no interior da cabana. Escutara um gemido. Era um choro amargurado e aflitivo, mas ainda assim, era um choro.

 

Subitamente o Marquês interrompeu as rezas, que morbidamente sussurrava, levantando-se muito devagar. O que Manuel vislumbrou a seguir deixou-lhe as veias em gelo. A pequena Madalena, mantinha-se amarrada, sem vida, no centro do tal estranho pentagrama. Darkmoon preparava-se para a tragar, esquartejando o seu fígado com uma longa adaga «tibetana». Manuel não conseguira conter-se com o choque e soltou um gemido. O assassino interrompeu o seu movimento cruel e os seus olhos loucos fixaram-se na janela. Apercebeu-se que estava alguém lá fora. Vestiu uma capa sobre o seu corpo nu e saiu para o exterior.  

-Escusas de fugir bastardo! Eu apanho-te! – Resmungou num tom ”sem-vida”, mas mortalmente ameaçador.

 

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(3) T.A. Latim:

Não quero morrer,

A morte é a ultima razão final de tudo.

Como Dádiva,

Suporta e abstém-te,

Uma só testemunha, nenhuma testemunha.

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Manuel correu velozmente sem saber para que direcção fugia. O Marquês perseguia-o, mas não vinha a pé, o maldito vinha a cavalo. Ouvia o resfolgar do animal, numa galopada intensa, mesmo no seu encalço. A imagem da pequena Madalena não lhe saía da cabeça. «Estaria viva, ainda?», pensava ele, cheio de pena e já sem fôlego.

Quando por fim as suas pernas se escusaram a correr mais, caiu no chão, completamente esgotado e vencido pelo cansaço. Não conseguia controlar a sua respiração, nem dominar o medo. Voltou a levantar-se e tentou correr novamente. Deu três passos e sentiu o chão a fugir-lhe dos pés. O seu corpo içava-se do chão. Um braço forte tinha-o agarrado com bastante força. Olhou para cima, e num gesto de desespero, desatou aos pontapés.

-    Tem calma Manuel! Por onde tens andando? Já percorremos tudo à tua procura! – Era António Albuquerque, que tentava acalmar o seu neto.

-    Avô! – Gritou ele aliviado – Temos de fugir daqui, já!

-    O que se passa? Por onde tens andado, miúdo?

 

 

Manuel contou ao avô tudo a que tinha assistido na parte recôndita, para lá do jardim do palácio e alertou-o que o maldito Marquês, o «Senhor», como humildemente lhe chamavam, agora perseguia-o para o matar, tal como tinha feito com as outras crianças.

 

António Albuquerque decidiu não regressar para os seus aposentos naquela noite. Tinha de fugir com o seu neto e procurar um refúgio para se esconderem do «seu senhor» - O terrível Marquês Darkmoon.

 

Ele sabia que a partir de agora, o Marquês ia encetar uma perseguição impiedosa por toda a região, para os silenciar.  

Ele era o assassino que as autoridades procuravam. Era um monstro. Matara oito crianças inocentes, incluindo a sua própria sobrinha. Raptava-as, levando-as de seguida para o bosque que se estendia para lá do palácio. Depois violava-as e por fim, tirava-lhes a vida.

 Dificilmente seria apanhado. Mas agora havia alguém que o podia identificar - o pequeno Manuel.

 

 

VII - À espera do Monstro

 

 

 

Era véspera de Natal, e todas as famílias estavam reunidas, numa mesa farta com comida, bebida e doçarias. Excepto o velho Albuquerque o seu neto e o cão, Dingo.

Estes tinham encontrado refúgio numa casa que estava desabitada, ali para os lados de Coina. Albuquerque conhecia os proprietários e sabia que eles tinham-se ausentado para o Alentejo, deixando assim, a casa vaga.

Sabiam que, mais tarde ou mais cedo, teriam de enfrentar o mais macabro dos assassinos, o homem mais poderoso e temível da região - o Marquês Darkmoon.

Mas António Albuquerque não era um homem de cobardice, não!

Era um exemplo de coragem e determinação, e o seu neto era a única “coisa” que a vida ainda não lhe tinha tirado, por isso, não havia de ser um assassino que lho havia de tirar. Para isso, o Marquês teria de sangrar também.

 

 

A madrugada surgira com subtileza e a neblina adensara-se na ria de Coina.

Albuquerque não se deixava entregar à sonolência. Aguardava, noite após noite, pela chegada daquele homem demoníaco, que perseguia o seu neto porque este o vira dentro de uma cabana com a pobre Madalena. Nem os espantalhos que guardavam a horta se moviam. Pareciam ter horror do que lá vinha.

Manuel, por sua vez, dormia, mas naquela noite os cães uivavam estridentemente pela mata da Machada, o que o fez acordar cheio de medo. Dingo ladrava e por vezes uivava também.

Não era um latido normal. Rosnava e babava-se completamente, como se tivesse cheio de “raiva”. Dingo só costumava ladrar daquela maneira quando pressentia a presença de estranhos.

Era ele. Tinha chegado.

Manuel escutou os passos vagarosos e calculados, que se aproximavam de forma aterradora do seu quarto. Esperou mais um pouco. Levantou-se, abriu a janela e saltou para o telhado. Deste, saltou para o solo, cumprindo com zelo e rigor, tudo o que já há muito estava combinado entre ele e o seu avô.

Mas o salto não fora bem calculado e acabou por cair mal no chão. Sentiu o seu tornozelo a estalar, mas isso não o fez desistir. Levantou-se e desatou a correr em direcção ao caniçal que se estendia pelo lado oeste da casa.

 

Escutou um latido agudo e aflitivo, vindo do interior da habitação, e a seguir fez-se sentir um silêncio intimidador. «Ele» tinha acabado de matar o Dingo. Aquele monstro esventrara o seu melhor amigo. Isto levou-o a desconcentrar-se um pouco. Teve vontade de voltar para trás, talvez ainda fosse a tempo de salvar Dingo…

Seguidamente apercebeu-se de umas densas passadas a alguns metros atrás de si. Darkmoon agora perseguia-o por entre o caniçal, e quanto mais perto o pressentia, mais forças reunia para fugir. Tropeçou e caiu. Tentou levantar-se, mas já era tarde demais -  estava nas garras de Darkmoon.

-Pensavas que podias fugir de mim, meu puro anjo? – Roncou ele de modo ameaçador.

 

Manuel sentira-se desfalecer. Rezou por Deus. Estava tudo perdido.

-Larga o meu neto, Darkmoon! Senão, encho-te de chumbo! – A voz de Albuquerque soou nem trovão. Apontava uma espingarda à cabeça do Marquês.

- Malditos sejam! – Praguejou ele, visivelmente admirado.

Darkmoon levantou os braços em modo de rendição, mas num gesto brusco, puxou da sua “Pedersoli”(4) e, sem ameaças, disparou contra Albuquerque, ferindo-o numa perna.

 

Manuel não esperou que Darkmoon disparasse outro tiro, e vazou-lhe uma garrafa com resina em cima. Albuquerque voltou a agarrar na sua arma, apontando-a ao peito do assassino, despejando-lhe dois tiros certeiros, que o fizeram cair pesadamente num charco que ali se fizera. De seguida deitou fogo a um archote e atirou-o para cima do Marquês, que se esvaía em sangue, agarrado ao peito. As labaredas invadiram o corpo de Darkmoon e iluminaram todo o caniçal.

Albuquerque não ficou parado a contemplar aquele cenário lúgubre, que mais parecia um ritual de imolação Árabe. Ergueu o seu neto do chão e alojou-o no seu colo. De seguida, correu velozmente, regressando para dentro de casa.

Darkmoon não conseguira livrar-se das roupas, nem extinguir as chamas que o consumiam descontroladamente. Em desespero, levantou-se e começou a correr pelo caniçal fora, berrando como um elefante ferido. Não tinha a noção para onde ia. Estava completamente envolto em chamas e ia morrer como bem merecia.

 

Darkmoon não chegou a acercar-se da casa, pois acabou por se atirar para dentro de um enorme poço que ali havia. Já não suportava mais o calor das chamas no seu corpo.

António Albuquerque contemplava com a glória estampada no rosto, o fim trágico do seu opositor. Ele e Manuel mantinham-se escondidos no sótão, e espreitavam por uma pequena fresta que tinham aberto entre as telhas. Mas Albuquerque não era homem para ficar apenas a observar. Para ele, Darkmoon tinha que ser completamente destruído. Não poderiam restar vestígios do seu corpo, nem da sua alma!

Assim, o velho saiu da casa e ordenou ao seu neto que juntasse todas as pedras que encontrasse por ali. Manuel obedeceu ao seu avô, sem efectuar as perguntas do costume.

 

Ao fim de algumas horas aproximaram-se os dois do poço, e Albuquerque chamou pelo Marquês

 

- Ainda estás vivo, maldito? – Inquiriu asperamente. A sua voz ecoou pelas paredes musgosas do poço. Do fundo veio apenas um breve gemido. Ele ainda estava vivo!

- Vais ter o fim que mereces, cabrão! – Bradou.

 

António agarrou num calhau e atirou-o para dentro do poço. Depois atirou outro, e mais outro, sem parar.

 

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(4) Arma de fogo, do sec. XIX

 

 

-Por favor! Não me matem! Deixem-me viver… – Grunhiu ele, com uma voz aflitiva e empastada que ecoou pela noite.

Indiferentes aos gritos de suplicia do Marquês, avô e neto não pararam de lhe arremessar pedras, até estas cobrirem por completo o poço em toda a sua fundura, sepultando assim aquele assassino demoníaco.

 

O monstro estava morto e enterrado. Tinha sido feita justiça.

 

Este foi o sentimento que dominou a consciência de António Albuquerque depois de contemplar o poço, que agora sepultava um ser medonho e macabro.

Ali jazia um monstro. Ali tinha de permanecer.

Seria como uma jaula, uma prisão sob pedras.

Mais tarde voltaria para desmanchar o muro do poço. Depois plantava-lhe uma «palmeira» em cima, e assim encobriria o crime, que não era mais do que um ajuste de contas.

Ninguém havia de saber o que se tinha passado naquela noite fria de Natal do ano de 1815.

 

 

VIII - O Retorno

 

 

 

-    Que cena doida, meu Deus! - Silvou Ricardo, esfregando a cara. - Já percebi porque nunca gostei do Natal!

-    Pois, meu amigo. Muitos das nossas fobias actuais provêm de traumas das vidas anteriores, sabes? – Advertiu.

-    E agora, diga-me o que se passa. Darkmoon voltou das trevas para se vingar de nós?

-    A resposta a essa e outras questões está aqui, meu amigo! – Exclamou o velho sábio, retirando um pequeno livro do interior do seu sobretudo.

-    O Que é?

-    O diário de Darkmoon! – Proferiu ele, exibindo o livro como se fosse um troféu.

-    O Diário de Darkmoon? Como o obteve? – Questionou, Ricardo indignado.

 

-    Sabes Ricardo, há mais de 30 anos que tenho vindo a vigiar este palácio de perto. E posso assegurar-te que muita coisa estranha tem acontecido por aqui. Embora o Marquês fosse um assassino e um violador, ele nunca ficou conhecido como tal. O pior de tudo, é que deixou alguns seguidores seus. – Asseverou ele, enquanto voltava a acender o seu cachimbo.

 

-    Seguidores, senhor Acácio?

 

-    É verdade, Ricardo. Creio que Darkmoon formou um culto secreto, antes de o terem convencido que estava possuído. Um culto de adoração a Satanás. Algo muito maligno….

-    E o diário? – inquiriu Ricardo.

-    Foi-me vendido por uma fortuna. Cem contos, há dez anos atrás. Um dos discípulos do seu culto vendeu-mo porque estava convencido de que o diário o estava a destruir. Apenas por isso.

 

-    Posso lê-lo, ou vou ficar possuído? – Gracejou Ricardo.

 

-    Não, Ricardo – retorquiu Acácio, num tom sério - Lê em voz alta, por favor.

 

 

Ricardo recebeu o diário das mãos ásperas do velho marujo. Desfolhou-o durante um bocado e por fim começou a ler em voz alta:

 

 

-                      «Domingo, 23 de Abril de 1815

 

Hoje soube, através do Doutor Gordon que poderei morrer dentro de três meses. Tenho uma doença incurável, que nem ele sabe o que é. Sinto-me perdido e desesperado.»

 

Voltou a desfolhar o diário, abriu-o noutra página mais à frente e continuou:

 

«Quinta-feira, 4 de Junho de 1815

 

Hoje fui caçar para o Alentejo. Apeteceu-me desfrutar dos prazeres da natureza e de me exercitar um pouco. Contudo, fui vítima de uma experiência agonizante. Fui atacado por uma cobra que saltou do cimo de uma árvore e que se enrolou na minha perna. Fiquei petrificado de medo. Se não tivesse sido a bravura do boleeiro, Boamorte, teria morrido de pavor. A pior morte que algum dia poderia ter, seria no meio de cobras….»

 

-Bem, pelo menos, já se sabe o que fragiliza o nosso inimigo. – Interrompeu Ricardo. Depois continuou a desfolhar o diário, até que parou numa página e recomeçou a ler:

 

«Terça-feira, 1 de Novembro de 1815

 

Hoje visitei Fréderic Antoine Mesmer, um curandeiro alemão que se encontra exilado em Portugal. Este disse-me que eu não sofria de doença nenhuma. Estava sim, possuído por «Abaddon», demónio da destruição; para exorciza-lo do meu corpo, eu teria de desflorar 9 virgens e comer os seus órgãos.

Que Deus me perdoe, mas eu não quero morrer»

 

 

-    Darkmoon não se limitou a violá-las. Ele matou-as, para que elas não pudessem vir a acusá-lo mais tarde. O Manuel seria a ultima criança que Darkmoon iria vitimar. – Completou Acácio.

-    Ou seja, o outro eu…

-Exactamente! – concordou o velho – Não há tempo a perder. Vamos concentrar-nos no que temos de fazer.

 

Após aquela experiência aterrorizante, ambos sabiam que estavam de novo expostos a uma terrível ameaça.

Darkmoon deixara que a sua alma fosse corrompida pelos seres sombrios que habitam as trevas e isso levara-o a cometer grandes e terríveis atrocidades. Quando o seu corpo ficou sepultado no fundo do poço, sob as pedras arremessadas pelos seus oponentes, já há muito que ele não vivia entre os seres de carne e osso que nascem e morrem. Não, Darkmoon já se tinha transformado numa criatura maligna, numa força oculta, que usa um corpo como veículo de comunicação no mundo em que habitamos.

Mas agora algo o tinha feito regressar das trevas. Podiam ter sido alguns rituais perpetrados pelos seus seguidores mais fanáticos. Também se podia explicar este fenómeno oculto, com o alinhamento dos planetas, pois decorria o ano de 1999 e o mês era Novembro. Segundo as previsões de Nostradamus, o «mal» iria renascer sob várias formas. Darkmoon seria uma dessas formas, concerteza.

 

 

Cento e oitenta e oito anos depois, eles tinham voltado ao palácio, o local assombrado, onde tudo tinha começado. Ali esperariam por ele. O palácio seria como o portal por onde as sombras enviariam o seu espectro mais perverso, ávido de vingança.

 Segundo os livros negros, um ritual só terá efeito, quando concluído com a «vítima» e «local» escolhidos. O ritual de Darkmoon não fora concluído - Faltava uma vítima.

 

 

De novo juntos, teriam agora de voltar a unir as suas forças e inteligência. Acácio Trigueiro já tinha engendrado um plano para surpreender Darkmoon quando este surgisse. Era um plano ainda mais perfeito do que aquele que engendrado há quase dois séculos. Não podiam perder mais tempo a partilhar histórias. Darkmoon vinha a caminho e estava disposto a derramar muito sangue.

 

XIX - Uma Memória sombria

 

 

A lua rasgava o céu nocturno quando ambos se aperceberam da comparência silenciosa de Darkmoon no palácio.

O ser misterioso penetrou abruptamente pela porta principal. Não demonstrava qualquer humanidade nas passadas descontroladas que dava. A sua respiração era grave e profunda. Acercou-se das escadas e começou a subir os degraus muito devagar. Envergava uma extensa capa de couro que lhe revestia o corpo todo. Era desmesuradamente alto. Usava um longo chapéu de abas largas, que lhe ocultava uma fronte obscura.

Quando chegou ao piso superior revistou todas as divisões, mas para seu infortúnio, não encontrou ninguém.

 

Inesperadamente, um corvo adejou, vindo do interior do celeiro abandonado, chamando a atenção de Darkmoon, que retrocedeu caminho para aquela zona.

Empurrou o portão, empunhando a Pedersoli.

 O interior do barracão estava todo iluminado com longos fachos, meticulosamente fixos à parede. Ao fundo, amontoavam-se fartos montes de feno entre as ferramentas e alfaias rurais. Subitamente, Ricardo saltou do meio dos aglomerados de pasto. Olhou para Darkmoon e viu-lhe o rosto pela primeira vez. «Monstruoso», pensou com pavor. Sentiu-se observado por uns abomináveis e desumanos olhos descoloridos, que pareciam querer dominá-lo.

                                                                                            

Ricardo tremia de medo, mas não deixou de contemplar o seu opositor.

-Estou aqui, Darkmoon! Sou eu quem tu procuras. Deixa o meu avô em paz! – Balbuciou, com a voz a tremer, mas com o olhar firme.

Mas a criatura nada dizia, continuava a examinar o pequeno, arfando como um animal, ostentando umas largas narinas, que vibravam como as de um lobo.

Darkmoon apontou-lhe a arma, como se estivesse a tentar imobilizá-lo. Ricardo conseguia ver-lhe a mão. Na verdade, não era uma mão, era uma garra. Tinha uns dedos ossudos e volumosos. Tirou o chapéu, deixando cair a sua longa e farta cabeleira sobre os ombros. Foi quando Ricardo viu que a face de Darkmoon estava coberta de queimaduras. Era uma face hedionda e deformada.

Darkmoon não atacou Ricardo. Percebeu que lhe tinham armado uma cilada. Desta vez não seria surpreendido. Tal como os seus opositores, Darkmoon adoptara a sua própria estratégia para a vingança.

-Sabes «Albuquerque»… – Grunhiu – Eu não sou uma alucinação. Eu sou o dono da tua mente e da tua vida. Eu sou o dono do teu destino.

- És um ser sem alma, Darkmoon! – Interpôs Acácio.

-E a tua mulher, a tua querida Filomena? – Roncou num tom de ironia – Fui eu que a matei naquela noite. Ah, como ela grunhiu, suplicando para que não a matasse…

Nesse momento, Acácio escapou-se do local onde estava escondido e correu como um louco em direcção a Darkmoon. Vinha com a carabina em punho e apontava em direcção à cabeça do seu inimigo de sempre.

Darkmoon caminhou cheio de tranquilidade em direcção a Acácio, que lhe disparou dois tiros na cabeça. Darkmoon continuou a mover-se, imperturbado pelos disparos. Abeirou-se de Acácio e desarmou-o com apenas uma das suas mãos. Depois, elevou o velho Acácio em peso no ar, deixando-o suspenso, como se fosse uma marioneta a tremelejar ao vento.

-Eu sou a tua vida, velho, mas também sou a tua morte! – Rosnou o ser, enquanto lhe prensava o pescoço.

Ricardo abdicou do plano que estava delineado e tentou ajudar o velho Acácio, que já estava roxo e à beira da asfixia, pendurado entre as mãos assassinas de Darkmoon. Deteve-se quando percebeu que, mesmo em dificuldade, o velho Acácio lhe fizera um gesto com a mão para esperar.

Por fim, Darkmoon soltou o velho Acácio, deixando-o no chão, meio aniquilado.

O «monstro» voltou a contemplar o Barracão. Procurava por Ricardo, que se mostrou, saindo de trás de um monte de feno.

-Estou aqui, palhaço! – Berrou o miúdo, chamando-lhe a atenção.

 

Darkmoon deu dois passos em frente e, inesperadamente, sentiu o chão a fugir-lhe dos pés.

Uma grande fossa abriu-se sob ele, engolindo-o completamente para o fundo.

Caíra em cima de algo languinhento, que amortecera a sua queda. Olhou em redor e viu-se envolto por dezenas de cobras de todos os tamanhos e de todas as cores; viscosas e entrelaçadas, amontoavam-se umas em cima das outras, movendo-se em direcções alternadas.

Darkmoon pensou em disparar sobre as cobras, mas apercebera-se de que a sua estimada «Pedersoli» estava perdida no meio daquele amontoado de serpentes, seria devorado num ápice.

 

 

Movido pela curiosidade, Ricardo acercara-se da beira do fosso. Queria ter a certeza que o plano tinha dado certo. Queria assistir de perto à morte de Darkmoon.

 Darkmoon, envolto no meio das cobras e já em sufoco, esticou bruscamente o braço e alcançou a bainha das calças do garoto, levando-o a cair também para dentro daquela cova enorme, repleta de cobras irrequietas. Darkmoon tinha-o apanhado.

-Socorro, Acácio! Tire-me daqui, depressa! – O garoto gesticulava e gritava, com uma voz de plena aflição.

Acácio agarrou num tronco comprido e correu em direcção da sua escavação. Deu a extremidade do barrote a Ricardo, que o agarrou com toda a força, até ser puxado das garras de Darkmoon, que já se preparava para o estrangular.

 

 Acácio Trigueiro retirou o diário de Darkmoon do seu bolso e bradou num tom cheio de furiosidade:

-Estão aqui as tuas memórias, Marquês! Eis o que resta de ti… Um diário! Não passas de uma memória retida no tempo!

Elevou o diário no alto dos seus braços esguios e maciços para que Darkmoon o visse.

De seguida, ateou fogo ao livro maldito escrevinhado pelo Marquês, e arremessou-o na sua direcção.

Ricardo viu Acácio trigueiro a remexer num monte de feno e a surgir de seguida com uma enorme catana nas mãos.

- Tapa os olhos. É melhor não veres isto, para não continuares a ter pesadelos – Asseverou Acácio.

O velho desceu ao fosso, acercou-se de Darkmoon e, num gesto brusco mas eficaz, golpeou Darkmoon, separando-lhe a cabeça do resto do corpo.

Depois voltou a sair do fosso como se nada tivesse acontecido. Trazia uma serpente agarrada a ele, que sacudiu como se fosse uma mosca.

 

Ricardo procurou o aconchego do velho Acácio, que não hesitou em o abraçar. Ambos permaneceram petrificados a observar aquele cenário lúgubre, que mais se assemelhava a uma oferenda demónica dos infernos. Queriam ter a certeza de que a ideia de Acácio era mesmo eficaz.

O velho tinha preparado aquela emboscada a Darkmoon há alguns anos atrás. Fora ele quem atraíra as cobras para aquele local. Posteriormente, edificou o barracão por cima do fosso. Agora bastava apenas voltar a tapar a cova que iria servir de sepulcro para o corpo decapitado de Darkmoon.

 

 

 

 

- Não teve medo das cobras, senhor Acácio? – Interrogou Ricardo, pleno de argúcia.

- Não. Estas cobras são plenamente inofensivas. Apenas as coloquei no fosso para baralhar Darkmoon, que lhes tinha um medo de morte…e parece que resultou.

- Ah… – Ricardo balbuciou, ficando nitidamente a pensar na abrangência de tudo o que tinha vivido nas últimas horas.

- Vamos pegar fogo a isto, miúdo! – Proferiu Acácio com toda a determinação.

-Sim, vamos! – Anuiu Ricardo.

 

 

Não havia vida.

Apenas chamas a destruir as madeiras e o feno que restava no celeiro. Sob as labaredas estaria Darkmoon, que ardia no inferno.

As chamas incandescentes devoraram o celeiro, levando-o a ficar em brasas apenas em poucos minutos.

 

 

 Ricardo ainda olhou para trás, desconfiado. Queria ter a certeza de que aquele monstro demoníaco tinha ficado sepultado ali para sempre. No seu íntimo, aquele garoto queria apenas viver a sua juventude com toda a normalidade, sem pesadelos, sem fobias.

 

 

Epílogo

 

 

 

Darkmoon fora imaginosamente derrotado.

Ele fora muito mais do que uma alucinação, um pesadelo ou uma ameaça espectral. Foi um «vampiro» que perseguiu aquelas duas “almas” durante cento e oitenta e oito anos. Fora o responsável pelas suas derrotas e também pelos seus êxitos. Afinal, ele manteve-os vivos para que as suas vidas apenas a ele pertencessem. Só assim poderia pôr fim à sua longa e espinhosa caminhada: vingar a sua morte e retornar à vida.

Darkmoon estava definitivamente morto.

Ricardo e Acácio Trigueiro ficaram para sempre unidos pelo condão mágico da vida: a amizade.

 

 

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Wednesday, March 12, 2008

IRMANDADE DAS SOMBRAS LANÇAM ANTOLOGIA

A IRMANDADE DAS SOMBRAS, grupo literário que reune diversos escritores amadores dedicados ao terror, ao horror e à fantasia, lançou pela Editora Câmara Brasileira de Jovens Escritores  (CBJE), a sua primeira coletânea, que, em 123 páginas, reúne contos de autoria de ALEXANDRE CTHULHU (portugal), CELLY BORGES, FERNANDO FERRIC, HENRY EVARISTO, HELL, JURANDIR ARAGUAIA, LINX, MAUREN GUEDES MÜLLER, LEONARDO NUNES NUNES, LUCIANO BARRETO, OBED DE FARIA JR., PAULO SORIANO, ROGÉRIO SILVÉRIO DE FARIAS, VICTÓRIA MAGNA  e WAGNER ANDREATA.

      Com apresentação de HENRY EVARISTO, a antologia traça um panorama da moderna literatura fantástica nacional, reunindo 21  trabalhos de alguns dos melhores escritores brasileiros de terror, horror e ficção científica.

      A organização e produção da antologia ficou a cargo de PAULO SORIANO, que mantém o “site” CONTOS GROTESCOS (www.contosdeterror.com.br), dedicado à divulgação de obras fantásticas de escritores brasileiros e portugueses.

 

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Sunday, August 19, 2007

Horror – Género literário ou psicanálise do oculto? - Por Alexandre Cthulhu

A mente humana e a procura de respostas “Penso que a coisa que mais alivio nos traz, neste mundo, seja a incapacidade da mente humana em correlacionar todos os seus conhecimentos. Vivemos numa plácida ilha de ignorância, no meio de mares negros de infinito, e não nos foram destinadas longínquas viagens. As ciências, cada uma tentando defender a sua posição, prejudicaram-nos pouco até agora; mas um dia, a união de conhecimentos dissociados irá revelar-nos perspectivas tão terríveis da realidade, e da nossa assustadora posição nela, que enlouqueceremos devido a esse anúncio, ou fugiremos dessa luz fatal para a paz e segurança de uma nova idade das trevas”.

Lovecraft abre desta forma, um dos contos mais intrigantes da história do género horror, “O despertar de Cthulhu”. Este autor norte-americano, considerado por muitos, como o melhor escritor de terror do século XX, explorava as limitações do conhecimento humano, desenhando-lhe em redor, num redor por nós desconhecido, um terror cósmico, inserindo-lhe sempre vários factos históricos que lhe conferiam uma autenticidade espantosa.

A ficção de horror como género literário é um instrumento de interrogação sobre os assuntos humanos, uma incessante busca pelas questões do oculto que desde sempre se afiguraram intransponíveis à mente humana para os conhecer, ou até compreender. A nossa mortalidade surge como inspiração capital para muitos escritores de horror, não somente como fruto de uma criatividade infinita, mas por estes compreenderem que a morte, e o mundo dos mortos comunicam com o mundo dos vivos através de códigos obscuros, apenas decifráveis para aqueles que não os ignoram e os pressentem. De um modo inato, todos sabemos que a morte constitui o único acontecimento vital da nossa breve passagem pelo planeta. A efabulação de grande parte dos contos de terror desponta para um “vasculhar” pelo maior enigma humano, quiçá, cientifico de sempre – A “morte” – tema comum em quase todas as narrativas deste género. A narrativa do macabro

A narração de histórias nasce pela mão do homem como forma de dar vida a ideias e objectos do ocultismo, ou corriqueiramente como forma de evitar aborrecimento e tédio. Os primeiros prosadores deste género, surgem nos finais do século XVIII, elaborando relatos sobre castelos assombrados, seres vampíricos sem vida que se alimentavam do sangue das suas vítimas, monstros imaginários e sem sentido, ou cemitérios sombrios onde os mortos se erguiam da terra sem se perceber bem, como ou porquê.

Tendo como base o antagonismo religioso e o seu fundamento escatológico, estes contos seduziam pelo seu eterno misticismo lendário e pela forma imaginativa como eram relatados. Contudo, não dispunham de qualquer autenticidade, e alguns autores usavam os seus monstros como alegorias para problemas sociais e políticos ou travestiam as narrativas encharcando-as com metáforas para sentimentos recalcados, o que, sabemos hoje, não ter qualquer enquadramento neste tipo de género literário porque o transforma num exercício de vulgar exposição, sonegando-lhe o objectivo fundamental: Criar medo.

Escritores de vulto

Deve-se a Edgar Allan Poe o mérito de ter renovado o conto de terror, mistério e morte, introduzindo-lhe o factor cientifico que o deixa mais verosímil e ao mesmo tempo mais aterrador. Ressuscitador do género “negro – gótico”, transforma-o em obra de arte de alto teor lírico, e não apenas para transmitir “medo”.

Poe concentrava-se no terror interior, intimo, da alma, do ser. As suas personagens sofriam de temores avassaladores vindos de dentro, das suas próprias fobias e pesadelos. Não existem contos de Poe narrados na 3ª pessoa. É sempre “ele” que vê que sente, que ouve e vive o mais escondido e profundo terror.

Jacques Cabout escreveu, “Ele (Poe) não coloca um indivíduo normal num universo inquietante, ele larga um indivíduo inquietante num universo normal. Nada acontece à personagem. A personagem é que acontece ao mundo.

Howard Phillps Lovecraft, por sua vez distingue-se de Poe no estilo. Fundador de uma mitologia “cósmico – fantástica” inserida numa realidade paralela, Lovecraft, desenvolve as suas histórias sobre estes temas, criando assim um modelo de incerteza na mente do leitor que desconhece essa mesma “realidade” por ele ficcionada: Seres de outras galáxias, alienígenas que visitaram (e governaram) a terra há milhões de anos atrás, sujeitando os humanos a escravos, erguendo cidades megalíticas, mas amaldiçoadas em diversos pontos do planeta. Seres que foram expulsos e desterrados para universos paralelos ou para as profundezas dos oceanos, como o caso do grande “Cthulhu”, um deus das trevas que desperta ao comunicar com os humanos através de sonhos e do auxilio do “Necronomicon”, ou através dos rituais obscuros nele escritos.  

H.P. Lovecraft escrevia num estilo muito próprio que levava os seus leitores a crer que as suas histórias eram de facto reais. Ainda hoje ninguém consegue afirmar se o livro “Necronomicon” realmente existiu, ou se é apenas uma criação dele. Ele não se limitou a criar um livro polémico (que foi escrito com sangue dos mortos). Ele elaborou toda a documentação histórica em redor da origem do livro. Livro que nos trás o conhecimento de seres ancestrais, assim como a história da passagem destes pelo nosso planeta, e respectivas formulas para aceder a dimensões paralelas. A sua simples leitura poderia levar uma pessoa à loucura. Por sua vez, o terror moderno de Stephen King é bem diferente. Ele importou o “horror” para a vida quotidiana, ou seja as personagens comem “Big Macs”, vão aos shoppings, bebem Cutty Sark, etc. – Algo inédito em autores anteriores.

A psicanálise do oculto

Estes autores deixam-nos numa dicotomia psíquica: Pura criatividade ou relatos de fantasmas interiores?

Os principais temas deste género literário situam-se entre os mistérios da mente e o enigma da morte. Os terrores por eles descritos, com grande intensidade e impressionante realismo, são terrores que se geram na mente das personagens, mas antes, essa realidade ambiente é visionada interiormente através do autor, e depois deformada por ele.

O medo é uma reacção humana universal, explicada biologicamente como sendo a protecção dada ao indivíduo em caso de perigo. É uma emoção que a pessoa experimenta quando se vê confrontada, frente a uma ameaça à sua vida ou ao seu corpo. Quando se escreve uma narrativa, tendo como suporte um tema obscuro, terá que haver, por parte do autor, um mergulho nas profundezas da alma humana, um perscrutar de certos estados mórbidos da mente, em hesitar em penetrar em esconderijos recônditos do seu próprio subconsciente.

O ser humano tem medo do desconhecido, daquilo que espera por ele fora da sua “realidade”. São os medos mais antigos, aqueles que persistem no imaginário humano. Os medos da idade adulta são os mesmos da infância, observados por outro prisma. As crianças têm medo do escuro porque se sentem sós. E este é também o nosso maior temor na idade adulta: O de acabar só.  

É sabido que os maiores vultos da literatura de terror (Poe e Lovecraft) viviam de perto com a morte e loucura, o que os lançava para um sofrimento constante e penoso.   

Lovecraft padecia de uma doença rara e faleceu com um cancro nos intestinos. Poe foi recolhido de uma sarjeta, numa rua de Baltimore num completo estado de embriaguês. Internado de seguida no W. College Hospital, passaria os seus dias derradeiros num estado semiconsciente, cheio de febre, chamando continuamente por um tal de “Reynolds”, que até hoje ninguém conseguiu identificar quem fosse. Acabou por falecer, vítima de alguma das enfermidades que se supõe que sofresse: tuberculose, epilepsia, diabetes, alguma lesão cerebral ou a combinação disso tudo. Será despropositado traçar um paralelo entre a produção literária de Poe e Lovecraft, e as circunstâncias que os empurraram para uma morte tão prematura?

 

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Sunday, August 12, 2007

Artigo sobre Alexandre Cthulhu na Pagina de Rogério Silvério de Farias

Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007

ALEXANDRE CTHULHU:ESTILO E SOBRENOME DE PESO

Um contista do Recanto das Letras tem se destacado por sua obra. Trata-se de Alexandre Cthulhu, de Portugal.
Seu sobrenome é o mesmo nome que designa um personagem famoso de Lovecraft, Cthulhu. Se influenciado ou não pelo mestre de Providence, o que importa é que Alexandre Cthulhu tem se destacado no Recanto das Letras, sendo inclusive alvo de comentários do “terrível” crítico Moacyr Ferraz; quando alguém recebe elogios do Ferraz, significa que estamos diante de um bom autor, pois Moacyr Ferraz é um dos críticos “mais temidos” do Recanto das Letras. Ferraz não elogia qualquer um.
Clique aqui para acessar o site de Alexandre Cthlhu e ler um de seus contos fantásticos!

 

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Thursday, July 12, 2007

FORÇA MORTAL - De: Alexandre Cthulhu

Força Mortal

 

Quero a minha vida de volta

Destruidora abstinência

Ilustre indulgência            

Que me mantém forte,

Apesar da morte!

A espada brilha no altar

O sino badala estridente

Oh, alma indolente

Que teima em não ressurgir

Liberta a força que há em ti

Pobre ser vivo

Esquartejado e sacrificado

O teu sangue derramado

Sob o pentagrama

Enquanto eu jazo na lama

Das trevas

Satan,

Quero viver

Livrai-me da placitude

Livrai-me da morte

Traz-me à vida

Faz-me Forte!

Sou líder de uma banda de “Black Metal” chamada “Terror mortal”. Já gravámos um CD e neste momento estamos a preparar o segundo. Eu sou guitarrista, vocalista e também sou responsável pelas letras das músicas. Este poema (força mortal) é o tema principal do trabalho que os “Terror Mortal” tencionam gravar em breve.

Como me inspirei para o escrever?

Não foi há muito tempo que me descobri satânico.

Não nascemos ateus nem cristãos. Nascemos satânicos.

“Satan representa indulgência e não abstinência!

Satan representa todos os denominados pecados, uma vez que todos eles conduzem à gratificação física, mental e emocional”

Toda e qualquer criança é satânica assim que nasce e, à medida que vamos crescendo vamos perdendo toda a pureza e tornamo-nos “noutra coisa” diferente, por influência ou por imposição. 

 Tenho reflectido muito sobre os dogmas da religião e sob os quais a nossa educação é erigida. A religião não é dada como algo garantido à nascença. Porquê que a religião cristã nos leva a negar os frutos da vida?

Porquê que temos que renunciar ao prazer dos sentidos?

Esta moralidade é uma fraude.

Enquanto crianças, somos indulgentes. Não nos privamos dos nossos desejos naturais e inatos. Fazemos tudo para obter o que desejamos num determinado momento. O satanista não adora o “diabo”. Esse ser é uma figura cristã. Eu venero-me a mim mesmo. Satan é uma palavra de origem hebraica, que significa”adversário”, opositor”, “inimigo”. Satan é o “opositor” de todo e qualquer Deus. Assim, o único Deus que eu reconheço, sou Eu próprio!

A minha mulher, Ângela, uma musa lindíssima que conheci num concerto dos “Moonspell”, não partilha desta minha tendência ideológica, mas é uma fiel companheira e uma excelente baixista. Eu amo-a acima de tudo.

Ela corresponde-me com todo o seu amor e pureza.

O mesmo já não posso dizer dos meus pais, que não aceitam esta minha atitude (o tornar-me satanista, e formar uma banda que invoca a morte e Satanás). Eles simplesmente cortaram relações comigo e com a minha querida Ângela.

Esta tomada de decisão por parte deles deve-se, em grande parte, ao facto de ambos serem Católicos praticantes, e por mais que eu lhes tente explicar que ter-me tornado satanista não implica adorar o demónio (nem sequer realizar rituais macabros), eles não aceitam.

Decidiram deixar de falar comigo, e começaram a mentir aos amigos sobre mim. Sempre que eram questionados acerca da minha banda, eles desmentiam, inventando que não era eu. Quando alguém lhes perguntava por mim, respondiam que eu tinha ido estudar para um colégio particular em Lisboa.

Bem, a verdade é que eu e Ângela vivemos com sérias dificuldades!

Além da banda, eu e Ângela não temos absolutamente nada, e eles têm tudo: São proprietários de várias ourivesarias, vivem luxuosamente, habitam numa vivenda com piscina e garagem…enfim, têm mesmo “tudo”!

Na segunda-feira passada, o proprietário da garagem onde a banda costuma ensaiar ameaçou-nos com uma acção de despejo, pois as finanças da banda estavam em baixo e o dinheiro não chegava para tudo. Decidi recorrer aos meus pais para me ajudarem, mas eles acabaram por me humilhar, e acabei por sair da casa deles, completamente humilhado, como se fosse um mendigo. O meu pai até teve a coragem de me informar que me tinha deserdado e que já tinha falado com o advogado da família para me excluir do seu testamento.

Quando regressei a casa, nem a minha doce Ângela me conseguiu acalmar.

- O que eu mais queria era que eles morressem! – Bradei eu desesperado e cheio de fúria.

- Tem calma, meu amor. Eles não merecem o filho que têm! – Sussurrou-me a minha amada, numa tentativa vã de me consolar.

Eu era filho único.

Durante toda a minha infância todos os mimos e atenções eram apenas dirigidos para mim. Nunca me preocupei em arranjar emprego ou dedicar-me aos estudos porque achava que tudo o que eles possuíam, um dia seria meu. Mas estava enganado. 

 Aos 15 anos comecei a sair e passei a assistir a concertos de bandas de Heavy metal, o que me influenciou ao ponto de deixar crescer bastante o cabelo e passar e vestir-me de negro. Também me tatuei e coloquei alguns piercings.

Mais tarde, formei a minha primeira banda de heavy metal, Os “Black Demon”. Tocávamos em bares e pubs, mas nada de original, apenas covers dos “Black Sabbath”que é a minha banda de eleição.

Mais tarde formei os “Terror Mortal” e passados dois anos, gravámos o primeiro CD, e isso deixou os meus pais em pânico, pois a capa exibia o demónio a possuir sexualmente uma freira. O conteúdo das letras era bastante agressivo, e também esse pormenor os deixou estupefactos.

Depois conheci a Ângela e casei com ela, apenas com 18 anos. Dediquei-me a ela e à banda, mas este não era o futuro que eles tinham imaginado para mim. Então passei a ser tratado como um “bastardo”. Depois decidiram castigar-me” da forma mais rude que eu podia alguma vez imaginar – negarem-me tudo a que tinha direito.

Na terça-feira, após ter estado a ensaiar com a banda, voltei a casa um pouco deprimido, pois tinha discutido com os restantes elementos da banda devido a divergências que já começavam a rebentar entre nós. Eu andava nervoso, pois não sabia como resolver estes problemas.

- Odeio os meus pais. O que eu mais queria era que eles morressem! – Desabafei naquela noite. Sentia-me desesperado.

- Eu também os odeio, amor. – Redarguiu Ângela num tom triste.

- Se continuarmos assim, vamos ter de acabar com a banda, amor.

- Mas a banda é tudo o que temos, querido. Foi tudo pelo que sempre lutaste – Afirmou ela.

- Não dá, amor. Temos que arranjar dinheiro. Temos que parar com a banda e arranjar um emprego, sei lá…

- Não, lindo! Os teus pais têm que nos ajudar. Eles são ricos, porra!

- Sabes que não posso contar com eles para nada. Até já me deserdaram, como tu sabes!

- Porque tu deixaste! A tua religião diz, “Satan representa bondade para aqueles que merecem e não amor desperdiçado em ingratos”. “Satan representa vingança e não dar a outra face”! – As palavras dela eram como murros no meu estômago.

Aos poucos, e também de uma forma subtil, Ângela precipitou-me para “aquele abismo” que Allan Poe descreve no seu “Demónio de perversidade”, impelindo-me para os limites da minha loucura.

“Se algo lhes acontecesse, tudo aquilo seria nosso”…”Eles tratam-nos como mendigos, quando dizemos que precisamos da ajuda deles”…”Parece que gostam de mandar nas nossas vidas”… 

 “Algo tem de ser feito, Zé!…Faz algo”…

Estas frases, proferidas pela voz musical e doce de Ângela, badalaram lugubremente no meu espírito, assolando-o noite após noite, até à data do eclipse solar, que coincidia com uma enigmática sexta-feira, dia 13 de Agosto.

Nessa manhã acordei completamente alucinado. Tinha sido atormentado durante toda a noite por pesadelos apavorantes. Olhei em redor do quarto, e apercebi-me que Ângela já tinha saído.

Sobre a mesa-de-cabeceira estava um bilhete deixado por ela. “Meu amor,

 

Na vida, temos poucas oportunidades para sermos felizes. Só se é realmente feliz quando fazemos aquilo que gostamos. Se achas que devemos ir trabalhar, tudo bem. Mas lembra-te que tens uns pais ricos, e se eles te deserdaram, não tendo eles mais filhos, a quem vão deixar aquela fortuna toda? À igreja?

 

Pensa nisto.

 

Volto à noite

 

Amo-te para sempre.

 

Beijos

 

Ângela” 

            A minha estimada Ângela tinha razão. Pois os meus pais fartavam-se de doar dinheiro à igreja. Da última vez que a igreja precisou de fazer obras, foram eles que as pagaram. Foram apenas vinte mil euros… Abandonei o apartamento com o desespero na minha alma.

A primeira coisa que fiz foi enfiar-me na tasca que fica logo em frente à minha casa, e logo ali emborquei quatro cervejas.

Segui caminho a pé até à casa dos meus pais, e a meio do percurso parei noutro café, onde bebi mais dez cervejas com vários whiskys pelo meio. Repeti este ritual nem sei quantas vezes, durante todo a manhã. Atravessei a ponte e observei a paisagem. 

 “O rio quando permanece na sua placitude, parece embalar as pequenas embarcações no seu regaço, tal como uma mãe acarinha um rebento no seu colo” – meditei.

Recordei-me da face terna da minha mãe e chorei. Contudo, as minhas lágrimas secaram sob o negror súbito que se apoderou, não do meu espírito, mas do… mundo! O eclipse estava a ocorrer e eu senti-me assombrado. Ai de mim!… Agora suportava paulatinamente o despertar do assassino que se incubava no meu corpo. Em vão, tentei reprimi-lo, mas a sua malvadez era poderosa e apossou-se vagarosamente da minha alma.

E foi já metamorfoseado neste “carrasco” que me aproximei da casa “deles”.

 Oh sim, a noite já mostrara a sua face, e eu…não. Eu não estava possuído! Antes pelo contrário. Os possessos não entendem nada.

Contornei a casa até às traseiras e galguei o muro pelo local onde o fazia sempre, quando não queria que eles soubessem a que horas eu chegava a casa.

Eu estava bem disfarçado. Se alguém me visse, não podia afirmar que era eu, aquele que ali vivera tanto tempo. O “zorro”, o RottWeiller, aproximou-se de mim a rosnar, mas de imediato sussurrei o seu nome e ele reconheceu-me. Dei-lhe duas festas e mandei-o afastar, o que ele fez obedientemente. Trespassei a porta das traseiras e penetrei pela casa dentro. A aparelhagem estava ligada. Tocava “cânticos religiosos” (que horror!).

Aproximei-me da sala, mas inesperadamente fui surpreendido pelo meu pai. Nem olhei para o rosto dele. Puxei do punhal e descarreguei-lhe vários golpes na cara e nos braços. Também o atingi no peito e nesse momento ele caiu brutalmente no chão, ficando a arfar que nem um animal em aflição. Não posso afirmar quanto tempo mais ele se aguentou naquele sofrimento.

Imediatamente a seguir, dei pela presença dela. Aproximou-se aos gritos. Estranhamente, não lhe reconheci a voz. 

 Atirou-se a mim, tentando-me deter. Elevei o braço para a apunhalar, mas ela conseguiu desviar-se, prendendo-me a mão, mordendo-a depois, ferozmente. Este gesto despertou ainda mais a minha ira, o que me obrigou a desferir-lhe um pontapé na cabeça, que a arrumou de vez.

O efeito do álcool não me deixava ver com nitidez. Por isso esperei o momento oportuno para lhe dar um golpe que a imobilizasse, pois ela já se preparava para fugir em direcção à rua.

Ergui-me e corri atrás dela, prendendo-a pelo pescoço. De seguida, levei-a ao chão e atingi-a com a lâmina no braço direito, o que a fez gritar, ficando agarrada ao membro agora ferido. Num ímpeto, saltei para cima dela e desferi-lhe várias punhaladas no peito. O último golpe que lhe descarreguei tirou-lhe de imediato a vida. Ela nem gritou nem gemeu, apenas ofegou durante uns segundos, depois desfaleceu. Não perdi tempo a certificar-me se respirava ou não.

Estava feito. O meu tormento tinha terminado ali, naquele momento.

A aparelhagem ainda tocava os horríveis cânticos religiosos. O Zorro ladrava estridentemente lá fora. Não havia de tardar, que a curiosidade dos vizinhos os motivasse a ir lá bater à porta, para saber o que se estava a passar. Seguidamente, viria a policia. Estava na hora de abandonar a casa e tinha de o fazer rapidamente.

Não podia deixar as coisas assim. Apesar de ter calçado umas luvas descartáveis, eu também estava a sangrar. Portanto havia “provas” que me comprometiam seriamente. Tinha que pensar rápido.

Tentei imaginar “algo” que eliminasse estas provas. Lembrei-me de um incêndio, e num ápice dirigi-me à cozinha, e desapertei completamente a válvula do gás. Depois liguei os quatro bicos do fogão e abri o esquentador também. 

 Seguidamente, abandonei a casa pelas traseiras e de lá atirei o isqueiro aceso para o interior da residência. O zorro ainda correu atrás de mim na brincadeira, mas eu nem lhe liguei.

Não podia perder tempo nem deixar quaisquer vestígios. Quando o gás alcançasse a chama do isqueiro, havia de se dar uma explosão e a casa ficaria em labaredas. O fogo consumiria os cadáveres que jaziam lá dentro e assim eu garantia um cenário ilusório de aparente tentativa de assalto que fora mal sucedido, cujo intruso recorrera ao incêndio para ocultação das provas.

Nunca cheguei a saber se a casa explodira ou não, pois não escutei qualquer som, que se assemelhasse a um estouro. Talvez devido à rapidez com que me ausentei do local, calculo. Tinha Corrido velozmente pelo meio do matagal que se estendia pela zona envolvente da localidade, que eu tão bem conhecia. Tinha brincado ali durante todo meu tempo de escola…

Ao fim de alguns quilómetros, parei para estabilizar a minha respiração. Doíam-me os músculos das pernas de tanto correr.

Olhei em redor. Inesperadamente, afiguraram-se-me várias recordações felizes da minha infância. Senti um vazio, e comecei a ficar cheio de frio. O “monstro” tinha-me abandonado. Oh, eu já não era “ele”. Tinha voltado a ser o Zé, como carinhosamente a minha mãe me chamava… – Tentei sacudir essas doces recordações do meu espírito, mas não consegui. Então voltei a correr. Percorri mais alguns quilómetros até à localidade mais próxima, onde apanhei um táxi, que me levou até casa. Só pensava em cair nos braços da minha doce esposa.  

O apartamento estava estranhamente silencioso. Imaginei que Ângela pudesse ainda não ter voltado. Mas ela surgiu, vinda da sala, fascinantemente bela como uma diva. Trajava uma camisa de dormir comprida, negra e transparente, que lhe realçava a sua volúpia desconcertante. Trazia o cabelo completamente solto que lhe caía sobre os ombros. Oh, como eu amava aquele seu estilo gótico, que tanto me seduzia.

Senti o seu abraço forte e duradouro. Depois, pegou-me pela mão e levou-me para a sala, que estava iluminada por dois candelabros que seguravam longas velas negras, que queimavam serenamente.

- Minha querida… – Sussurrei entre soluços agoniantes.

Ângela fixou-me, penetrando os seus olhos negros em mim. Não falou. O seu silêncio lúgubre levou-me a concluir que ela sabia o que eu tinha acontecido, tal como uma Deusa que conhece todos os passos do seu servo.     

- Meu amor… – Redarguiu ela, com uma voz inexpressiva, pousando a sua mão suave sobre o meu cabelo.

Acabámos a noite a fazer amor. Amámo-nos como nunca, num clima de arrebatadora loucura e incessante desejo. Eu era louco por ela. Eu morria por ela. Eu matava por ela…

Às três e meia da madrugada, a porta da minha casa foi sacudida por violentas pancadas que me fizeram despertar numa perturbação inquietante. Ergui-me da cama e fui ver o que se passava. Ângela também já estava acordada. 

 - Quem está aí? O que quer? – Inquiri.

- Policia!…abra a porta imediatamente – Uma voz fria e penetrou pela minha casa dentro como um tiro no escuro.

Respirei fundo. Apertei o Baphomet (1) que trazia ao peito e abri a porta tranquilamente. Não quis demonstrar qualquer receio ou hesitação.

Deparei-me com três agentes da Policia Judiciária, bastante sisudos.

Um deles ainda disse “boa noite”. O outro, que parecia mais graduado, perguntou-me o nome e de seguida informou-me de que o Juiz de turno do tribunal de Aveiro emitira um mandato de captura, o que os obrigava a deter-me imediatamente.

Naquele instante senti-me como se o meu corpo tivesse ficado sem sangue. Olhei para o agente e ofereci-lhe os meus punhos, que ele agrilhoou com um par de algemas grossas e frias.

Abandonei a casa com os meus olhos fixos em Ângela, a quem eu dirigi um breve “amo-te muito” através dos meus lábios mudos. Depois fui abruptamente transportado para o Golf, que arrancou com grande velocidade.

Nas instalações da PJ fui sujeito a um extenso e fatigante inquérito por parte do chefe de brigada, que me informou sobre os crimes que eu era suspeito: Homicídio e tentativa de ocultação de crime.

Também me comunicou que havia testemunhas que declaravam ter-me visto no local do crime, na noite de sexta-feira, dia 13 de Agosto.

Por fim, fui enviado para os calabouços húmidos, onde aguardei pelo desenrolar das investigações. Comecei a cismar se o agente não estaria a fazer “bluff” com aquela história das testemunhas, pois seria impossível alguém ter-me avistado por ali, até porque eu tinha tomado precauções para que ninguém me reconhecesse, colocando um chapéu na cabeça.

Aguardei com a mais pura das descontracções que tudo se resolvesse, pois eu sabia que a policia trabalhava mal, e jamais iriam encontrar as provas que me podiam incriminar de facto.  

De manhã fui acordado pelo ruído perturbador do destrancar da porta gradeada da minha cela.

-Senhor José, venha comigo. – Ordenou o guarda prisional com uma voz firme.

- Concerteza, senhor guarda. Finalmente os “bófias” concluíram que estou inocente, não é verdade? – Indaguei eu, virando-me para o guarda que me escoltava.

-Não, senhor José. Você tem visitas!

- Visitas?… Quem? A minha mulher? – Insisti ansioso.

-Não, são os seus pais! – A frase produzira o efeito de um tiro na minha cabeça. O guarda silenciou-se e isso deixou-me pensativo. Enquanto percorria o corredor que me levava à sala de visitas, a meu cérebro examinou todas as hipóteses de tal eventualidade ser real e possível.

- Oh, deve haver um equívoco, os meus pais estão m… – o meu discurso fora interrompido pela imagem assombrosa dos meus progenitores, que se mantinham com um aspecto saudável e…”vivos”! (1) Também conhecido como Bode de Mendes, criado por Eliphas Levi no sec. XIX. Representa a absorção do conhecimento. È usado como Símbolo dos Satanistas com um pentagrama invertido.

 

- Pai…mãe!… – balbuciei, incrédulo. Depois até sorri, por os ver ali (com vida), na minha presença. Por outro lado, persistia a dúvida pavorosa que me martelava o espírito – A quem tinha eu tirado a vida, afinal?…

A minha mãe estava com um ar de quem não dormia há algumas noites. Pegou no auscultador e desferiu-me um olhar de franca piedade antes de começar a falar.

- Porque fizeste aquilo, meu filho? – Indagou ela com um tom carregado.

- O que fiz eu?… – Perscrutei inocentemente. A minha franqueza levou-os a pensar que eu estava louco.

- Entraste na nossa casa e apunhalas-te os teus tios que tinham sido convidados para passar uns dias lá em casa. – Afiançou o meu pai com bastante frieza.

- Eu?…

- Sim. Nós estávamos na cozinha, e eles andavam lá por casa…mas quando tudo aquilo começou a acontecer, escondemo-nos na dispensa com medo. Meus Deus! Filho, porque fizeste aquilo?…Ainda fomos a tempo de fechar o gás, senão também já não estaríamos aqui! – Proferiu a minha mãe entre soluços.

Após escutar as palavras dela, ainda Levei algum tempo até compreender o erro que realmente tinha cometido. A falta de lucidez, causada pelo álcool, levara-me à perturbação dos meus sentidos, o que me impeliu para uma loucura desmedida, atacando os inocentes que me apareceram à frente, sem sequer imaginar, que poderiam ser outras pessoas, que não os meus pais.

Senti o sangue a enregelar-se-me nas veias, e deixei de sentir o chão sob os meus pés. Tinha voltado as costas à luz, e agora tudo à minha volta eram sombras.

A loucura, não é mais do que a destruição da armadura da nossa lucidez. Falar dos meus pensamentos agora, não faz nenhum sentindo, pois nada me afecta, excepto o terror de enfrentar estas barras de aço por onde espreito todos os dias, para me recordar que existe um mundo aí fora, muito diferente deste que eu suporto aqui, com grande amargura.

- Oh Ângela, meu amor – Berro eu todas as noites do fundo deste “inferno”, que é o meu calabouço… Mas a minha querida Ângela nunca me respondeu.

 

Posted by cthulhu at 17:27:12 | Permalink | Comments (2)